Joana Lobo Anta

Não me lembro de ser gente sem ser artista. Desde pequenina que sempre desenvolvi o gosto pelas artes, mais concretamente aos 3 anos de idade. Dizia com toda a convicção que queria ser artista plástica e, felizmente, os meus pais sempre me deram todo o apoio para seguir o meu sonho. Estudei afincadamente, fiz Design Gráfico no IADE, pois não tinha entrado em Belas Artes por meia décima e quando terminei o curso rumei a Itália, à cidade medieval de Perugia e estudei durante um ano na Universidade de Belas Artes Pietro Vannucci.

Fui também aluna do mestre Luis Vieira Batista e assistente do híper-realista Gustavo Fernandes, aprendi técnicas únicas que jamais as Universidades me conseguiriam dar.

Quando regressei a Portugal voltei com a forte convicção dentro de mim que não iria trabalhar num escritório e que iria sempre lutar por singrar nas minhas áreas artísticas. Tenho vindo a realizar várias exposições desde 2002 e sempre que pinto abre-se um portal interior com uma mistura de delírio e nostalgia exacerbados pelos sons que vou ouvindo e pelas imagens a que vou dando vida.

Como costumo dizer, a pintura é o meu lado A. Mas também existe um lado B: A Música. Esta veio mais tarde mas nasceu cedo dentro de mim esta sede de cantar. Durante anos fui completamente demovida em cantar, todos me diziam, inclusive os meus pais, que a minha voz era esganiçada, uma mistura de voz de bagaço com a da peixeira! Cheguei a entrar no coro da escola primária, a minha primeira conquista musical mas rapidamente fui posta de lado, diziam eles ser devido ao facto de eu não ser católica e funcionar quase como uma blasfémia abrir a goela num templo de Deus.

Já que ninguém me queria ouvir, cantava às escondidas, metida no meu quarto, entre vinis de Bruce Springsteen, Tina Turner, Madonna, agarrando uma escova, fingindo ser o meu microfone. Chegava até a imaginar-me em palcos mas este sonho era sempre gozado, diziam-me que já tinha um sonho e uma vocação artística, para quê dispersar-me?

No Verão de 1994, com 16 anos, fui passar umas férias a Vilamoura com o Ricardo. Tinhamo-nos conhecido nesse ano e o click foi imediato. Ficávamos horas incontáveis a falar do Cosmos, na vida extra-terrestre, das ondas que gostávamos de surfar, de música e afins. Desde cedo que vi no Ricardo um ser-humano cheio de potencial e alma… Numa noite fomos todos a um karaoke, inclusive a minha mãe que decidiu vir passar uns dias de descanso no calor do Sul. Foi nesse dia que a minha vida mudou… Enquanto eu estava alegre da vida a cantar uma canção do Ben King a minha mãe voltou-se para trás para apreciar a linda voz, disse-me ela mais tarde, que ecoava na sala. Quando terminou veio dar-me os parabéns e desculpar-se por nunca ter acreditado que eu poderia ter algum jeito para a música. Foi a minha carta de alforria que mudou a minha vida desde então.

Um mês depois tive a minha primeira banda de punk hardcore! Cantei neste registo durante quase 10 anos e muitos me tentaram demover do sonho. Mas continuei, persisti, insisti e nunca desisti. Aprimorei a técnica do canto numa escola de música, frequentei workshops e pratiquei muito com as bandas que fui tendo. Passei por vários estilos, desde o punk, o rock, o reggae até finalmente me render ao Jazz, ao Blues e ao Soul, assim como os live acts de música electrónica, onde ponho em prática os meus skills de improviso.

Com o nascimento dos meus filhos a música tornou-se uma evidência na minha carreira e desde 2009 que me tornei profissional no ramo. Feitas as contas, já canto há quase 23 anos e conto com milhares de actuações e concertos na manga. Fui auto-didacta a maior parte do tempo e o que me tem mantido agarrada aos sonhos de singrar como artista, de viver a vida de uma forma plena e sincera para comigo mesma tem sido a minha alma. Sinto-a já antiga e com uma vontade singular de deixar algo com conteúdo nesta efemeridade da vida.

Pinto e canto apontamentos de cor e melodia para alegrar um mundo maravilhoso perdido no caos do vazio.

Com alma,

 

Joana